Fonte: Revista ABCFARMA Ano 10 - 126 - volume II Existe muita confusão, tanto entre médicos quanto entre pacientes, em relação ao termo gastrite. Etimologicamente, gastrite significa “inflamação do estômago”. Entretanto, o termo muitas vezes é usado como referência para definir uma simples indisposição estomacal – que a rigor deveria ser chamada de dispepsia.
Na verdade, a gastrite é uma doença específica – e merece tratamento
especializado, para não evoluir. Felizmente, a farmacologia brasileira
já conta com inúmeros medicamentos que controlam muito bem essa revolta
do estômago contra o stress, a má alimentação e uma bactéria (imagens
acima e abaixo) que tem predileção pela mucosa gástrica.
Segundo os especialistas, as gastrites podem ser classificadas em dois
grandes grupos: erosiva ou hemorrágica e não erosiva. Erosão, nesse
caso, é uma ulceração rasa, que não ultrapassa a camada muscular da
mucosa, semelhantemente a uma afta. Este tipo de gastrite ocorre em
pacientes internados em CTI, sendo também chamada lesão de stress.
Ocorre também em pacientes que estão usando antinflamatórios, quando
são chamadas também de gastropatia hemorrágica. Entre as gastrites
não-erosivas, que são crônicas, a mais comum está associado a uma
bactéria chamada Helicobacter pylori – aliás, o mesmo agente que está
por trás das úlceras. Atualmente a biópsia gástrica é realizada de
rotina na grande maioria dos serviços de endoscopia para pesquisar a
presença dessa bactéria, descoberta em 1987 e hoje responsabilizada
pelas gastrite e úlceras.
A GASTRITE ESPECÍFICA Mas há um outro tipo de
gastrite, a específica, que costuma ser associada a hábitos de vida –
talvez seja essa a forma mais comum da doença, aquela relacionada com
um desequilíbrio da acidez estomacal. A inflamação da mucosa gástrica,
nesse caso, pode ser manifestada por náuseas, vômito, hemorragia, dor,
mal estar. Crises ocorrem muito freqüentemente após ingestão de
alimentos específicos para os quais o indivíduo já tem sensibilidade
aumentada, comer muito rapidamente, comer após emoções fortes, ou
quando o indivíduo se encontra muito cansado. Excesso de álcool, tabaco
ou alimentos muito condimentados podem ser fatores desencadeantes de
crises de gastrite.
Segue abaixo uma orientação dietética:
Alimentos proibidos:
- Alimentos gordurosos e frituras em geral
- Frutas ácidas (laranja, abacaxi, limão, morango, damasco, pêssego, cereja, kiwi)
- Temperos (vinagre, pimenta, molho inglês, massa de tomate, molhos
industrializados, katchup, mostarda, caldos concentrados, molho
tártaro), picles
- Doces concentrados (goiabada, marmelada, doce de leite, cocada, pé-de-moleque, geleia, compotas)
- Frutas secas e cristalizadas
- Frutas oleaginosas (nozes, avelã, coco, amêndoa, castanha de caju e do pará, amendoim, pistache)
- Feijão e outras leguminosas
- Pepino, tomate, couve, couve-flor, brócolis, repolho, pimentão, nabo, rabanete
- Café, chá preto, mate e chocolate
- Lingüiça, salsicha , patês, mortadela, presunto, bacon, carne de porco, carnes gordas, alimentos enlatados e em conserva
Recomendação importante:
- Não ficar por mais de 3 horas sem se alimentar
Além desses cuidados alimentares, geralmente utilizam-se antisecretores tanto na prevenção como no tratamento das lesões
UMA BACTÉRIA MUITO POPULAR
A grande vedete da gastroenterologia contemporânea é o Helicobacter
pylori. A descoberta desta bactéria, que hoje é tida como o agente da
mais frequente infecção humana, há apenas 15 anos (1983), revolucionou
o entendimento de algumas gastrites, úlceras pépticas gastricas e
duodenais. Por causa do grande número de pacientes que são portadores
da infecção, e também do grande número de trabalhos científicos que
estabelecem novas conotações para a infecção, cresce significativamente
a pressão para os médicos tratarem todos os pacientes. Mas, a fim de
não estimular o surgimento de cepas resistentes das bactérias com um
tratamento indiscriminado, a terapia com antibióticos deve ser bastante
criteriosa, segundo critérios de bom senso. A infecção pelo H. pylori é
universal, mas predomina nos países em desenvolvimento, onde metade da
população é infectada até os 10 anos de idade. A bactéria não tem
reservatórios na natureza, portanto a transmissão se dá entre as
pessoas, através de contato direto ou contaminação de água. A taxa de
infecção tem uma grande correlação direta com baixos índices
sócio-econômicos.
Qual seria a relação entre gastrite e úlcera? Segundo o
gastroenterologista Wilson Polara, a gastrite pode predominar no
corpo ou no antro gástrico ou ainda atingir todo o órgão – no caso, uma
pangastrite. Naqueles de predomínio no antro, há tendência de haver
secreção ácida normal ou aumentada e maior chance de úlcera duodenal;
enquanto nos pacientes em que a gastrite predomina no corpo do estômago
há tendência de desenvolvimento de gastrite atrófica, úlcera gástrica e
câncer.
Tratamento
A meta do tratamento é a erradicação do microrganismo, que é definida
como a negativação dos exames quatro semanas após o fim do uso de
antimicrobianos O tratamento é difícil porque o habitat da bactéria é
como o recheio de um sanduiche entre as células superficiais da mucosa
e a camada de muco que reveste internamente o estômago.
Fica assim protegido do contato direto do antibiótico ingerido e ao
mesmo tempo, do que chega pela corrente sanguínea. Segundo Polara, não
existe uma droga que, sozinha, consiga um resultado satisfatório.
Atinge-se índices de erradicação entre 70% e 95% com diversas
combinações de três ou mais drogas. Há consenso internacional quanto à
necessidade de erradicar o H pylori quando ele coexiste com doença
ulcerosa, mas em relação a outras situações clínicas a controvérsia
parece longe de acabar.
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